
TERNURA DE UM FIM DE TARDE |
....................Nada
é mais lindo neste mundo do que um fim de tarde,
quando o pôr-do-sol ilumina nossa alma. Desde garota,
eu gostava de olhar o horizonte e ver as nuvens caminharem,
vagarosas e solenes, escondendo os últimos raios
do sol que morria pouco a pouco. Aqueles eram momento de
reflexões que me ocorria fazer sobre a vida, a natureza
e as pessoas que me rodeavam. Muitos hão de achar
que eu era uma garota prodígio, mas não, eu
era apenas uma menina, digamos, precoce, que já meditava
sobre as coisas à sua volta.
....................Ao
olhar o pôr-do-sol no fim da tarde tudo parecia real:
saudades, alegrias, medos, conflitos (familiares ou populares),
erros, esperas. Eram sentimentos confusos, motivados naquele
pôr-do sol que me extasiava. Minhas emoções
caminhavam paralelas e desapareciam nas linhas sinuosas
da estrada que eu começava a trilhar, então.
....................Assim
eu cresci e passei a admirar o pôr-do-sol com uma
conotação diferente. Hoje, ele ilumina minhas
divagações e me permite ver com mais clareza
o mundo que caminha sob um céu que acolhe as nuvens
negras e rosadas, com restos de luz no início da
noite. Então eu penso, olhando o firmamento, que
o final da tarde é quase o final da vida. Cada minuto
que passa é a vida que se esvai, como se esvaem os
sonhos após tantos golpes que a ela nos dá,
tantos açoites que destroem as nossas ilusões.
....................No
fim da tarde, olhando o horizonte avermelhado, meu pensamento
voa sob um céu cor de fogo, e eu repenso tudo o que
vivi, todas as alegrias, todas as dores, todos os fracassos
e tudo o que realizei. E me sinto reconfortada.
....................A
vida é como um trem que passa, carregando sonhos
e emoções. E nesse trem somos todos passageiros,
cuja visão idílica é traçada
por nosso subconsciente. Enquanto o trem desliza em trilhos
já gastos, nós aguardamos o destino final,
ansiosos por chegar à nossa estação,
imaginando que nela iremos encontrar charangas a tocar,
bandeirinha a colorir o nosso caminho, amigos acenando para
nos saudar. E, esperançosos, achamos que, ao desembarcarmos
na estação distante, iremos realizar todos
os nossos sonhos, aqueles que alimentamos no decorrer de
nossa existência; aqueles que consolaram as nossas
horas vazias e nos deram ânimo para correr em busca
da felicidade.
....................Porém,
mais cedo ou mais tarde, perceberemos, com certa desilusão,
que não há estação nenhuma;
não há lugar a estacionar. E logo chegamos
à conclusão de que o importante mesmo é
a viagem, durante a qual experimentamos alegrias, tristezas,
emoções, desgostos, fracassos, realizações.
Por isso, devemos parar de contar os quilômetros e
apreciar a viagem, com suas paisagens, curtindo-a bastante
e valorizando as coisas que vamos encontrando pelo caminho:
as flores silvestres, o canto dos pássaros, a imensidão
do mar, a árvore solitária e, principalmente,
o pôr-do sol.
....................A
vida é feita de coisas simples, apenas algumas circunstâncias
a complicam. Há aqueles que acham que é necessária
muita coisa para serem felizes, pois o pouco não
os satisfaz. Porém, não percebem que pouca
coisa – pequenas coisas e pequenos gestos –
basta para compor a felicidade. Eis aí o segredo.
O importante é não perder a essência,
o sorriso nos lábios, o brilho nos olhos e dar importância
às coisas mais simples que surgem no cotidiano. Esta
é a grande sabedoria do bem viver. Isso faz com que,
na sutileza de um sorriso, se ganhe o palitinho premiado
da vida.
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