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CRÔNICAS
2009
2010
Jornalista e escritora - Membro da academia Maceioense de Letras


E O RIO DE JANEIRO... CONTINUA LINDO?

....................................Para quem, como eu, conheceu o Rio de Janeiro na década de 60, sabe o quanto esta cidade era realmente maravilhosa. Desfrutava-se de sua beleza de forma plena, deliciando-se com todas as maravilhas que ela oferecia.
....................................Cheguei ao Rio num ensolarado dia de fevereiro de 1961, trazendo na bagagem sonhos e esperanças de realizações. Naquela época, ainda não havia o Aterro do Flamengo, nem o Monumento aos Pracinhas, nem os jardins de Burle Marx. O mar era separado do centro da cidade por um muro, impedindo-nos de ver a sua exuberante beleza.
....................................De início, fiquei hospedada em Botafogo, no apartamento de uma amiga pernambucana, o que me facilitou os primeiros contatos com a cidade, permitindo-me a intimidade logo alcançada com o seu cotidiano. Minha convivência diária com a “cidade maravilhosa” alcançou, de imediato, uma simbiose importante, juntando a efervescência cultural dos anos sessenta com minhas primeiras tentativas de realização, sobretudo no jornalismo, o que, aliás, me levou para lá, onde atuei em alguns jornais cariocas.
....................................Os anos 60, também chamados “Anos Dourados”, foram sobretudo de muita efervescência musical, ao dar continuidade ao movimento da bossa nova, que teve início em fins dos anos 50, encabeçado por João Gilberto, Nara Leão, Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Luiz Bonfá, Billy Blanco, Roberto Menescal e outros. Todos atendiam aos questionamentos básicos dos ouvintes, como uma espécie de “lead”, mas de forma poética. Os primeiros encontros foram no apartamento de Nara Leão, depois passaram a ser feitos no “Solar da Fossa”, um velho casarão em Botafogo, onde se reunia a nata da MPB: Gil, Gal, Caetano, Bethânia. Muitas vezes, visitei o casarão e assisti aos ensaios daquela animada turma.
....................................Na verdade, o Rio era uma cidade disponível, da qual todos nós podíamos tirar proveito, no maior engajamento. Foi justamente esta inventividade que aproximou talentos diversos em torno do Corcovado, Pão de Açúcar, de seus bairros: Leme, Copacabana, Leblon, Ipanema etc., carreando o autônomo destino de cada um, inexoravelmente lançado à sua realidade.
....................................Após 24 anos de convivência feliz com esta cidade de inesgotáveis belezas, eu a troquei por Minas Gerais, para onde me mudei em busca de outro tipo de realização: meu casamento.
....................................Hoje, longe do Rio, eu me pergunto: E o Rio de Janeiro... continua lindo? É que, ao ver pela TV, o caos vivido pela mais bonita capital brasileira, chego à conclusão de que este refrão não mais condiz com a sua realidade. É claro que contestar seus encantos é impossível.
....................................Quando o Rio era cantado em verso e prosa, as alusões à sua beleza não se limitavam apenas à sua natureza exuberante, mas sobretudo à irreverência de seu povo, romântico, alegre, gozador e bonito, o que o diferençava de todo o resto do país, tanto que a referência do Brasil só se representava pelo Rio de Janeiro. Ele era o berço de toda a evolução do país.
....................................O coração do Brasil sempre pulsou forte no Rio de Janeiro – aliás ainda pulsa até hoje – apesar de todos os percalços que ele enfrenta atualmente, com a criminalidade dominando nos morros e já descendo o asfalto, impossibilitando seus habitantes de gozarem de total tranquilidade como nos anos 60, quando o Rio vivia num clima de paz e felicidade. É, portanto, com pesar que tomo conhecimento de tudo de ruim que vem acontecendo no meu querido Rio de Janeiro.

 

arlenemiranda2008@gmail.com