E O RIO DE JANEIRO... CONTINUA LINDO?
....................................Para
quem, como eu, conheceu o Rio de Janeiro na década de 60, sabe
o quanto esta cidade era realmente maravilhosa. Desfrutava-se de sua beleza
de forma plena, deliciando-se com todas as maravilhas que ela oferecia.
....................................Cheguei
ao Rio num ensolarado dia de fevereiro de 1961, trazendo na bagagem sonhos
e esperanças de realizações. Naquela época,
ainda não havia o Aterro do Flamengo, nem o Monumento aos Pracinhas,
nem os jardins de Burle Marx. O mar era separado do centro da cidade por
um muro, impedindo-nos de ver a sua exuberante beleza.
....................................De
início, fiquei hospedada em Botafogo, no apartamento de uma amiga
pernambucana, o que me facilitou os primeiros contatos com a cidade, permitindo-me
a intimidade logo alcançada com o seu cotidiano. Minha convivência
diária com a “cidade maravilhosa” alcançou,
de imediato, uma simbiose importante, juntando a efervescência cultural
dos anos sessenta com minhas primeiras tentativas de realização,
sobretudo no jornalismo, o que, aliás, me levou para lá,
onde atuei em alguns jornais cariocas.
....................................Os
anos 60, também chamados “Anos Dourados”, foram sobretudo
de muita efervescência musical, ao dar continuidade ao movimento
da bossa nova, que teve início em fins dos anos 50, encabeçado
por João Gilberto, Nara Leão, Vinicius de Moraes, Tom Jobim,
Luiz Bonfá, Billy Blanco, Roberto Menescal e outros. Todos atendiam
aos questionamentos básicos dos ouvintes, como uma espécie
de “lead”, mas de forma poética. Os primeiros encontros
foram no apartamento de Nara Leão, depois passaram a ser feitos
no “Solar da Fossa”, um velho casarão em Botafogo,
onde se reunia a nata da MPB: Gil, Gal, Caetano, Bethânia. Muitas
vezes, visitei o casarão e assisti aos ensaios daquela animada
turma.
....................................Na
verdade, o Rio era uma cidade disponível, da qual todos nós
podíamos tirar proveito, no maior engajamento. Foi justamente esta
inventividade que aproximou talentos diversos em torno do Corcovado, Pão
de Açúcar, de seus bairros: Leme, Copacabana, Leblon, Ipanema
etc., carreando o autônomo destino de cada um, inexoravelmente lançado
à sua realidade.
....................................Após
24 anos de convivência feliz com esta cidade de inesgotáveis
belezas, eu a troquei por Minas Gerais, para onde me mudei em busca de
outro tipo de realização: meu casamento.
....................................Hoje,
longe do Rio, eu me pergunto: E o Rio de Janeiro... continua lindo? É
que, ao ver pela TV, o caos vivido pela mais bonita capital brasileira,
chego à conclusão de que este refrão não mais
condiz com a sua realidade. É claro que contestar seus encantos
é impossível.
....................................Quando
o Rio era cantado em verso e prosa, as alusões à sua beleza
não se limitavam apenas à sua natureza exuberante, mas sobretudo
à irreverência de seu povo, romântico, alegre, gozador
e bonito, o que o diferençava de todo o resto do país, tanto
que a referência do Brasil só se representava pelo Rio de
Janeiro. Ele era o berço de toda a evolução do país.
....................................O
coração do Brasil sempre pulsou forte no Rio de Janeiro
– aliás ainda pulsa até hoje – apesar de todos
os percalços que ele enfrenta atualmente, com a criminalidade dominando
nos morros e já descendo o asfalto, impossibilitando seus habitantes
de gozarem de total tranquilidade como nos anos 60, quando o Rio vivia
num clima de paz e felicidade. É, portanto, com pesar que tomo
conhecimento de tudo de ruim que vem acontecendo no meu querido Rio de
Janeiro.
arlenemiranda2008@gmail.com
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