
MINHAS DUAS ESTRELAS
Arlene Miranda
Jornalista e escritora (membro da Academia Maceioense de
Letras) /arlenemiranda2008@gmail.com
............................Acabo de ler
o livro “Minhas Duas Estrelas”, do cantor Pery Ribeiro, um
livro interessante que retrata, com realismo e de forma muito agradável,
a era de ouro do rádio brasileiro.
............................O livro narra
a trajetória artística e os conflitos que envolveram a vida
de dois dos mais importantes artistas da música brasileira: a cantora
Dalva de Oliveira e o compositor Herivelto Martins, cujas músicas
se imortalizaram através dos anos. Quem, dos que viveram a época
áurea do rádio, não se lembra de “Caminhemos”,
“Cabelos Brancos”, “A camisola do dia”, “Atiraste
uma pedra”, “Carlos Gardel” e tantas outras composições
belíssimas. Foram músicas que serviram para alimentar, por
anos seguidos, o embate entre Dalva e Herivelto após a conturbada
separação.
............................Os dois famosos
artistas tiveram uma vida amorosa tão apaixonada quanto conturbada,
conforme mostrou a minissérie “Dalva e Herivelto, uma canção
de Amor”, exibida pela TV-Globo, de autoria de Maria Adelaide Amaral,
baseada no livro de Pery, filho mais velho do casal, um depoimento pungente,
em que ele narra os conflitos que envolveram a vida de seus pais e todo
o sofrimento vivido por ele e o irmão Bily, em decorrência
do sofrimento da mãe e do gênio irascível do pai.
Ambos foram, de certa forma, irresponsáveis, a ponto de perder
a guarda dos filhos que, por determinação do Juiz, foram
retirados do convívio familiar e levados a morar em internatos,
sem falar nos maus-tratos e nas surras que Pery levava do pai, muitas
vezes por nada, servindo apenas para saciar a revolta e a arrogância
de um pai algoz.
............................Segundo Pery,
o livro foi a forma que ele encontrou para reviver as lembranças,
tanto as alegres quanto as doloridas, de sua convivência com os
pais. “Não se trata de uma biografia, mas de um livro das
minhas lembranças ao lado de meus pais”, escreveu. Lembranças
que a minissérie retratou tão bem, tendo Adriana Esteves
(genial), no papel de Dalva de Oliveira, e Fábio Assunção
(excelente), no papel de Herivelto Martins, boêmio, egoísta,
mulherengo.
............................O livro me encantou
de forma muito especial, visto que, na adolescência, eu vivi intensamente
a era do rádio, juntamente com minha irmã Goia. Ouvíamos
a Rádio Nacional num velho rádio “Pilot”, aparelho
antigo que transmitia com muita deficiência. Nele, ouvíamos
os programas de César de Alencar, Ary Barroso, Paulo Gracindo e
outros de grande audiência, nos quais cantores famosos da época
se apresentavam: Orlando Silva, Carlos Galhardo, Francisco Alves, Emilinha
Borba, Marlene, Cauby Peixoto, Dircinha e Linda Batista (que depois se
tornou minha amiga no Rio de Janeiro) e outros que fizeram a glória
do rádio brasileiro nas décadas de 50 e 60. Colecionávamos
álbuns de fotografias, autografadas pelos artistas, conseguidas
através da Rádio Nacional.
............................“Minhas
duas estrelas” é um extenso depoimento de um filho sofrido
e, ao mesmo tempo, apaixonado pelos pais. Nascido na pobreza do cortiço,
em 1937, Pery descreve, com um realismo comovente, a trajetória
de suas duas estrelas, da ascensão à glória, até
a traumática separação do casal, embalada por insultos
contidos nas músicas feitas por compositores como David Nasser,
Marino Pinto, Ataulfo Alves e tantos outros que alimentavam a polêmica
musical, aumentando a vendagem das revistas especializadas e excitando
os fãs, que se dividiam entre os dois.
............................O livro é
bom e vale a pena ser lido.
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