QUESTIONÁRIO DE PROUST |
........................Na
minha adolescência, as garotas costumavam andar munidas de um caderno,
no qual havia um questionário para ser respondido por amigos e
colegas sobre vários assuntos. Essa diversão virou mania
em festinhas sociais. Os cadernos eram caprichosamente enfeitados com
desenhos coloridos: corações, flores, céu, mar e
tudo o mais para ilustrar as perguntas. Ingênuas, convém
frisar!
........................Na verdade, essa
moda não começou no Brasil nem é deste século.
O jogo teve início na Inglaterra, no século 19, na época
da Rainha Vitória e se chamava “Confissões”.
Era praticado por jovens ricos que o promoviam em reuniões sociais,
entre colegas de sua idade. Inclusive, entre as histórias que cercam
sua origem, destaca-se a que envolve a figura do escritor francês
Marcel Proust, autor da famosa obra “Em busca do tempo perdido”.
........................Bon vivant, sedutor
e espirituoso, Proust enfeitava as festas da alta sociedade parisiense
e, numa delas, a convite da dona da casa, sua prima Antoinette Faure,
respondeu a um questionário que era passado a todos os convidados.
Consta que Proust gostou tanto das perguntas que, a partir daquele dia,
passou a interessar-se pelo assunto e, após introduzir nele mudanças
significativas, o modelo foi batizado com o seu nome.
........................A adaptação
do questionário, feita por Proust, ficou famosa depois que foi
encontrada, em 1924, pelo filho de sua prima Antoinette. Devido às
adaptações feitas pelo escritor francês, o questionário
se transformou em base para jornalistas na hora de fazer uma entrevista
com perguntas e respostas rápidas, do tipo “bate-bola”.
........................O “Questionário
Proust” ficou conhecido no mundo inteiro e já foi respondido
por artistas e escritores de todo o planeta. O “Jornal das Letras,
dos Irmãos Condé, pelos anos 50, publicou respostas de gente
famosa como, por exemplo, Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira.
........................Eu também
tive o agradável prazer de responder ao “Questionário
de Proust”, atendendo solicitação de Pinheiro Pucu,
cronista da Gazeta de Alagoas, na década de sessenta. Uma das perguntas
formuladas foi: “Quais os seus autores favoritos?” Minha resposta:
“Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Eça de Queiroz, Jorge
Amado, Fernando Sabino, Mauriac, Érico Veríssimo”.
Não citei Carlos Heitor Cony, hoje o meu autor preferido, por não
conhecer a sua obra, na época.
........................Na versão
proustiana, as perguntas podem ser respondidas de forma espontânea,
quase automaticamente, o que permite que as respostas sejam reveladoras.
........................Esse fogo social
ainda hoje agrada às pessoas. Digo isso, por ver sua prática
ser adotada em festinhas e reuniões sociais. Sem ser, necessariamente,
preciso buscar originalidade, os solicitados a responder o questionário
vão se sentir bem à vontade em participar de tal divertimento.
........................O próprio
Marcel Proust não hesitou diante da pergunta: “Quais são
as qualidades favoritas numa mulher?” E, com toda a sua genialidade,
deu a seguinte resposta: “A doçura, a naturalidade e a inteligência”.
........................Há informes
seguros que dão conta de que Proust gostava muito de jogo de salão.
Como na época não tinha televisão nem computador
– aliás, não tinha quase nada –, as pessoas
se valiam desse tipo de jogo para se divertir.
........................Eu também,
na adolescência, tive o meu caderninho, no qual anotava as respostas
de colegas, amigos e familiares em minha cópia fajuta do “Questionário
Proustiano”, verdadeira febre entre os adolescentes.

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