CRÔNICAS
2009
2010
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QUESTIONÁRIO DE PROUST



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Na minha adolescência, as garotas costumavam andar munidas de um caderno, no qual havia um questionário para ser respondido por amigos e colegas sobre vários assuntos. Essa diversão virou mania em festinhas sociais. Os cadernos eram caprichosamente enfeitados com desenhos coloridos: corações, flores, céu, mar e tudo o mais para ilustrar as perguntas. Ingênuas, convém frisar!
........................Na verdade, essa moda não começou no Brasil nem é deste século. O jogo teve início na Inglaterra, no século 19, na época da Rainha Vitória e se chamava “Confissões”. Era praticado por jovens ricos que o promoviam em reuniões sociais, entre colegas de sua idade. Inclusive, entre as histórias que cercam sua origem, destaca-se a que envolve a figura do escritor francês Marcel Proust, autor da famosa obra “Em busca do tempo perdido”.
........................Bon vivant, sedutor e espirituoso, Proust enfeitava as festas da alta sociedade parisiense e, numa delas, a convite da dona da casa, sua prima Antoinette Faure, respondeu a um questionário que era passado a todos os convidados. Consta que Proust gostou tanto das perguntas que, a partir daquele dia, passou a interessar-se pelo assunto e, após introduzir nele mudanças significativas, o modelo foi batizado com o seu nome.
........................A adaptação do questionário, feita por Proust, ficou famosa depois que foi encontrada, em 1924, pelo filho de sua prima Antoinette. Devido às adaptações feitas pelo escritor francês, o questionário se transformou em base para jornalistas na hora de fazer uma entrevista com perguntas e respostas rápidas, do tipo “bate-bola”.
........................O “Questionário Proust” ficou conhecido no mundo inteiro e já foi respondido por artistas e escritores de todo o planeta. O “Jornal das Letras, dos Irmãos Condé, pelos anos 50, publicou respostas de gente famosa como, por exemplo, Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira.
........................Eu também tive o agradável prazer de responder ao “Questionário de Proust”, atendendo solicitação de Pinheiro Pucu, cronista da Gazeta de Alagoas, na década de sessenta. Uma das perguntas formuladas foi: “Quais os seus autores favoritos?” Minha resposta: “Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Eça de Queiroz, Jorge Amado, Fernando Sabino, Mauriac, Érico Veríssimo”. Não citei Carlos Heitor Cony, hoje o meu autor preferido, por não conhecer a sua obra, na época.
........................Na versão proustiana, as perguntas podem ser respondidas de forma espontânea, quase automaticamente, o que permite que as respostas sejam reveladoras.
........................Esse fogo social ainda hoje agrada às pessoas. Digo isso, por ver sua prática ser adotada em festinhas e reuniões sociais. Sem ser, necessariamente, preciso buscar originalidade, os solicitados a responder o questionário vão se sentir bem à vontade em participar de tal divertimento.
........................O próprio Marcel Proust não hesitou diante da pergunta: “Quais são as qualidades favoritas numa mulher?” E, com toda a sua genialidade, deu a seguinte resposta: “A doçura, a naturalidade e a inteligência”.
........................Há informes seguros que dão conta de que Proust gostava muito de jogo de salão. Como na época não tinha televisão nem computador – aliás, não tinha quase nada –, as pessoas se valiam desse tipo de jogo para se divertir.
........................Eu também, na adolescência, tive o meu caderninho, no qual anotava as respostas de colegas, amigos e familiares em minha cópia fajuta do “Questionário Proustiano”, verdadeira febre entre os adolescentes.