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O SENTIDO
DO NATAL - 03/01/2009
................Inicio
esta crônica lembrando o avarento Ebenezer Scrooge, personagem da
história “A Christmas Carol” ou “Um Cântico
de Natal”, de Charles Dickens, que odiava o Natal. Essa lembrança
me vem como um paralelo que faço entre o ódio de Ebenezer
pelos festejos natalinos e a minha falta de entusiasmo por este período
festivo, em que se comemora o nascimento de Cristo, embora as famílias
que se reúnem para comemorar a data festejem mais Papai Noel do
que propriamente Jesus.
Ao confessar isso, não me refiro ao caráter religioso do
Natal, que é lindo, cuja mensagem humanitária de Cristo
atravessou séculos e continua poderosa até hoje, mas ao
consumismo frívolo que, nesta época, chega à compulsão,
embora os economistas afirmem que o consumo de Natal movimenta a economia,
afasta o fantasma da recessão, gera empregos e torna as pessoas
mais felizes.
................Mas, para mim, há
muito o Natal perdeu o seu verdadeiro sentido. Nas comemorações
natalinas, o que se vê são pessoas preocupadas com as ceias
fartas, nas quais se empanturram de perus recheados, panetones, rabanadas
e vinhos em profusão, favorecendo-lhes a animação.
Festas com papais-noéis pançudos, de barbas brancas, a gritarem
oh, oh, oh, desfilando pela sala decorada com árvore de Natal,
com inúmeros presentes espalhados pelo chão, vestidos naquela
ridícula roupa de cetim vermelha.
................Não pensem que esse
meu alheamento às festas natalinas é devido a algum trauma
de infância, pois não é. Quando pequena, tivemos (meus
irmãos e eu) natais muito bons, com ceia recheada de saborosos
quitutes e o Bom Velhinho deixando em nossos sapatos os presentes desejados.
Por isso, certamente os amigos acharão que eu deveria gostar das
festas de Natal. Mas não gosto! Não sei se é o caso
de não gostar, propriamente. Só sei que sinto uma grande
tristeza inundando minha alma, uma vontade incontida de chorar na noite
santa. São as lembranças dos entes queridos que já
se foram, é a saudade maltratando o meu coração.
É a angústia de saber que o mundo caminha cheio de insensibilidade
e injustiça social, onde, em muitos lugares, criancinhas famintas
disputam um pedaço de pão; crianças esquecidas que
não têm sequer o direito de sonhar com Papai Noel, cuja imagem
se concentra num velho injusto, de barbas brancas, que não chega
até elas para dizer: oh, oh, oh e lhes deixar nos sapatos rotos
um brinquedo, mesmo que seja de papelão. Um mundo cheio de hipocrisia,
de falsidade, de mentiras, onde os poderosos só pensam em levar
vantagem e espezinhar os mais fracos.
................Para ser sincera, nem sei
bem o que mais me entristece nesse período de Natal. Talvez seja
o egoísmo dos homens, a ansiedade das pessoas que cruzam comigo
nos shoppings, essa obrigação de se sentirem alegres, de
irradiarem uma felicidade que talvez não sintam. Essa falsa generosidade
com hora marcada, como se essas datas de Natal e Ano Novo não fossem
apenas convenções impostas no calendário. Como se
não devêssemos ser generosos com nossos semelhantes o ano
inteiro.
................O Ano Novo, então,
nem gosto de comentar, quando a tristeza é redobrada. É
a incerteza do amanhã que virá com o novo ano, é
o vazio de não saber para onde irão os meus sonhos, é
a falta de perspectiva para o futuro, se é que, com a minha idade,
eu ainda possa pensar em futuro.
................Portanto, na virada do Ano
só me resta assistir, pela TV, à Missa do Galo que, com
seu simbolismo, cores e músicas, é capaz até de comover
corações embrutecidos como o do velho Scrooge.

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