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.............................................................................A
CASA CAIADA DE TERNURA
........................Ela guardava e protegia nossa infância.
Todos os dias, Goia e eu cultuávamos nossos sonhos, brincando na
pequena entrada, que deveria ser um jardim, mas não tinha flores
por ser forrado de cimento. Era naquele pequeno espaço, quase jardim,
que vivemos nossas aventuras.
........................Ficava em nosso caminho.
A casa. Situada na Rua Barão de Atalaia, nos idos de 1944, a primeira
que habitamos em Maceió e na qual moramos até 1948, pouco
antes da “tromba d’água” que quase a arrasou
em maio de 1949, derrubando casas e matando amigos que deixaram saudade.
........................A
casa era branca e graciosa. Um gradil prateado, à sua frente, protegia
o pequeno jardim sem flores e alguns degraus que levavam ao terraço
que dava acesso à sala de visitas. E à sua volta, nosso
mundo encantado.
.......................Sobre ela, brilhava
o sol de verão, qual zênite dourado que a tornava mais bela.
O janelão da frente se abria em dois e em cada lado um coração
vazado. Ali morava o amor, eu pensava. Nossa vida era tranquila, minha
mãe parecia feliz. Era bonita, vaidosa, usava brincos e colar de
marcassita, vestia-se bem, arrumava os cabelos no salão de Madame
Regina e ia, com papai, às sessões noturnas do Cinearte,
deixando-nos sob os cuidados de nossa babá, a doce Tonha, uma preta
esperta que nos contava histórias da carochinha, alimentando os
nossos sonhos. Ela cuidava de mim e de Goia com dedicação
de mãe. Os outros irmãos, já grandinhos, não
necessitavam dos seus cuidados.
.......................A casa era o nosso
refúgio; um castelo encantado que guardava as nossas fantasias.
Eu a queria para mim. Amava-a. Venerava-a. O seu cheiro me acompanhou
por longo tempo, até ser substituído por outros cheiros
menos doces e menos ativos. Mas, vez por outra, ainda o sinto quando a
relembro, graciosa como um bolo de aniversário, igual aos que mamãe,
para festejar nossos aniversários, encomendava à dona Mariquinha,
famosa boleira que morava na Rua do Sol.
.......................Uma de minhas mais
ternas lembranças era o bonde passando em frente à casa,
devagar, os estribos cheios de homens elegantes, em terno branco e chapéu
panamá, rumo ao Centro ou a Mangabeira.
.......................Lances incríveis
nós vivenciamos na casa querida. Um deles, eu jamais esqueci: julgando
que éramos ricos, ladrões passaram a tentar assaltá-la.
À noite, eles desciam a barreira do Jacintinho e se posicionavam
nos galhos das mangueiras frondosas do quintal do vizinho e assobiavam,
avisando aos outros que “chegara a hora”. Meus irmãos,
garotos com idade entre 15 e 18 anos, munidos de porretes, saíam,
corajosamente, à cata dos meliantes, ajudados por outros garotos
da vizinhança. Era uma aventura e tanto! Preocupado com a situação,
papai mandou vir do Pilar um vigia – o simpático Joel –
para nos proteger.
.......................Tantas lembranças
são guardadas com saudade! Porém, o tempo passou. Tivemos
que nos mudar da casa querida, deixando para trás tudo o que compôs
nossa felicidade. Vez por outra, eu busquei reviver os momentos de tão
puras aventuras, na esperança de reencontrar o passado, vivenciado
em nossa casa adorada.
.......................Mas um dia ela não
estava mais lá. O progresso insensível a demoliu para, em
seu lugar, erguer um escritório qualquer, frio e desumano, sem
encanto e sem história. Seu coração se partiu, não
aguentou. Nem a casa vizinha restou, nem as mangueiras frondosas, nem
o mundo encantado que povoou nossa infância. O amor havia morrido,
o sonho acabado. O dela e o meu.

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