CRÔNICAS
2009
2010
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.............................................................................A CASA CAIADA DE TERNURA

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Ela guardava e protegia nossa infância. Todos os dias, Goia e eu cultuávamos nossos sonhos, brincando na pequena entrada, que deveria ser um jardim, mas não tinha flores por ser forrado de cimento. Era naquele pequeno espaço, quase jardim, que vivemos nossas aventuras.
........................Ficava em nosso caminho. A casa. Situada na Rua Barão de Atalaia, nos idos de 1944, a primeira que habitamos em Maceió e na qual moramos até 1948, pouco antes da “tromba d’água” que quase a arrasou em maio de 1949, derrubando casas e matando amigos que deixaram saudade.
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.A casa era branca e graciosa. Um gradil prateado, à sua frente, protegia o pequeno jardim sem flores e alguns degraus que levavam ao terraço que dava acesso à sala de visitas. E à sua volta, nosso mundo encantado.
.......................Sobre ela, brilhava o sol de verão, qual zênite dourado que a tornava mais bela. O janelão da frente se abria em dois e em cada lado um coração vazado. Ali morava o amor, eu pensava. Nossa vida era tranquila, minha mãe parecia feliz. Era bonita, vaidosa, usava brincos e colar de marcassita, vestia-se bem, arrumava os cabelos no salão de Madame Regina e ia, com papai, às sessões noturnas do Cinearte, deixando-nos sob os cuidados de nossa babá, a doce Tonha, uma preta esperta que nos contava histórias da carochinha, alimentando os nossos sonhos. Ela cuidava de mim e de Goia com dedicação de mãe. Os outros irmãos, já grandinhos, não necessitavam dos seus cuidados.
.......................A casa era o nosso refúgio; um castelo encantado que guardava as nossas fantasias. Eu a queria para mim. Amava-a. Venerava-a. O seu cheiro me acompanhou por longo tempo, até ser substituído por outros cheiros menos doces e menos ativos. Mas, vez por outra, ainda o sinto quando a relembro, graciosa como um bolo de aniversário, igual aos que mamãe, para festejar nossos aniversários, encomendava à dona Mariquinha, famosa boleira que morava na Rua do Sol.
.......................Uma de minhas mais ternas lembranças era o bonde passando em frente à casa, devagar, os estribos cheios de homens elegantes, em terno branco e chapéu panamá, rumo ao Centro ou a Mangabeira.
.......................Lances incríveis nós vivenciamos na casa querida. Um deles, eu jamais esqueci: julgando que éramos ricos, ladrões passaram a tentar assaltá-la. À noite, eles desciam a barreira do Jacintinho e se posicionavam nos galhos das mangueiras frondosas do quintal do vizinho e assobiavam, avisando aos outros que “chegara a hora”. Meus irmãos, garotos com idade entre 15 e 18 anos, munidos de porretes, saíam, corajosamente, à cata dos meliantes, ajudados por outros garotos da vizinhança. Era uma aventura e tanto! Preocupado com a situação, papai mandou vir do Pilar um vigia – o simpático Joel – para nos proteger.
.......................Tantas lembranças são guardadas com saudade! Porém, o tempo passou. Tivemos que nos mudar da casa querida, deixando para trás tudo o que compôs nossa felicidade. Vez por outra, eu busquei reviver os momentos de tão puras aventuras, na esperança de reencontrar o passado, vivenciado em nossa casa adorada.
.......................Mas um dia ela não estava mais lá. O progresso insensível a demoliu para, em seu lugar, erguer um escritório qualquer, frio e desumano, sem encanto e sem história. Seu coração se partiu, não aguentou. Nem a casa vizinha restou, nem as mangueiras frondosas, nem o mundo encantado que povoou nossa infância. O amor havia morrido, o sonho acabado. O dela e o meu.