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“ANTES, O VERÃO”:
RELATO DE AMOR E PERDA
..............Em
meu recente aniversário, ganhei um presente que muito me alegrou:
o livro “Antes, o verão”, de Carlos Heitor Cony, um
dos poucos que ainda não possuía. Minha alegria foi maior
por tratar-se de um livro de Cony, meu autor preferido, e por ter em meu
poder um dos seus melhores romances. É lamentável que seus
livros não sejam encontrados nas poucas livrarias existentes em
Maceió.
.............Concentrando a trama nos problemas
que afetam a classe média brasileira, Cony, nesse romance, foge
à temática da maioria dos escritores nacionais, que ignoram
os dilemas da nossa classe média, normalmente elegendo outros temas
para suas obras, dando a impressão de ter sido instaurada uma lei,
pela qual a chamada burguesia não teria direito a ser retratada
pela literatura brasileira. Pelos lançamentos recentes, observa-se
que os escritores discutem a violência urbana, do ponto de vista
da inclusão social, até mesmo o preconceito racial, onde
a burguesia, essa vilã, parece ser, ela mesma, o verdadeiro negro.
.............A maioria dos novos escritores
se refere à classe média para apenas notificar algum problema:
Corrupção, ela existe? Se existe, é atribuída
à classe média. Há injustiça social? A culpa
é da classe média, preocupada apenas com seus dramas burgueses.
Vale então perguntar: Onde está a inversão? O fato
é que a classe média, para certa literatura, é considerada
a elite mandante do País, algo no mínimo questionável.
“Antes, o verão” foge claramente a essa suposta regra
irracional. O livro mostra a trajetória de uma família,
cujo objetivo maior se concentra na construção de uma casa
de praia, situada em Cabo Frio, no Rio de Janeiro. Todavia, o que deveria
ser um lugar prazeroso para o deleite da família, torna-se o início
do fim.
.............Assim como a casa começa
a apresentar seus problemas pontuais, o casamento, que no começo
parecia estável e feliz, passa a ficar por um fio. É a prova
de que a felicidade não pode ser comprada com esses sonhos de consumo.
E mais: o alvo que pode estragar tudo está ao lado. Trata-se de
um intruso, um hóspede que chega sem ser convidado, amigo dos filhos
do casal, mas um peso morto para Maria Clara e o marido.
.............Com relação à
casa, há a areia que silenciosamente ameaça a estragar a
construção. É como uma espécie de presságio,
determinando que essa aparente felicidade encontra-se por um fio. Num
determinado trecho do livro, se lê: “É imbatível
até o próximo vento minar as estruturas mais sólidas”.
É como se, minando as estruturas da casa, minasse também
as do casamento.
.............Depois, nada mais tornará
a vida a ser como antes. Uma vida, enfim, onde não há soluções
simples. Essa parece ser a lógica inexorável: mesmo nos
relacionamentos mais estáveis e duradouros, tudo poderá
acabar pelo acaso.
.............Esse romance, como toda a obra
de Cony, constitui um interessante universo a ser descoberto, não
apenas quanto à imaginação literária, mas
também no que concerne às questões de versatilidade
de seus personagens, ora atormentados, ora perplexos, com um sentimento
de impotência ante o caos com que se deparam no cotidiano.
Ao ler Cony, sinto um imenso prazer. As situações por ele
criadas, os acasos surgidos a cada capítulo, as descrições
perfeitas das coisas, os lances psicológicos dos personagens, tudo
é primoroso. São relatos de amor e de perda, perfeitas combinações
entre ficção e realidade. Enfim, um deleite para nosso espírito.

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