CRÔNICAS
2009
2010
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“ANTES, O VERÃO”: RELATO DE AMOR E PERDA

..............Em meu recente aniversário, ganhei um presente que muito me alegrou: o livro “Antes, o verão”, de Carlos Heitor Cony, um dos poucos que ainda não possuía. Minha alegria foi maior por tratar-se de um livro de Cony, meu autor preferido, e por ter em meu poder um dos seus melhores romances. É lamentável que seus livros não sejam encontrados nas poucas livrarias existentes em Maceió.
.............Concentrando a trama nos problemas que afetam a classe média brasileira, Cony, nesse romance, foge à temática da maioria dos escritores nacionais, que ignoram os dilemas da nossa classe média, normalmente elegendo outros temas para suas obras, dando a impressão de ter sido instaurada uma lei, pela qual a chamada burguesia não teria direito a ser retratada pela literatura brasileira. Pelos lançamentos recentes, observa-se que os escritores discutem a violência urbana, do ponto de vista da inclusão social, até mesmo o preconceito racial, onde a burguesia, essa vilã, parece ser, ela mesma, o verdadeiro negro.
.............A maioria dos novos escritores se refere à classe média para apenas notificar algum problema: Corrupção, ela existe? Se existe, é atribuída à classe média. Há injustiça social? A culpa é da classe média, preocupada apenas com seus dramas burgueses. Vale então perguntar: Onde está a inversão? O fato é que a classe média, para certa literatura, é considerada a elite mandante do País, algo no mínimo questionável.
“Antes, o verão” foge claramente a essa suposta regra irracional. O livro mostra a trajetória de uma família, cujo objetivo maior se concentra na construção de uma casa de praia, situada em Cabo Frio, no Rio de Janeiro. Todavia, o que deveria ser um lugar prazeroso para o deleite da família, torna-se o início do fim.
.............Assim como a casa começa a apresentar seus problemas pontuais, o casamento, que no começo parecia estável e feliz, passa a ficar por um fio. É a prova de que a felicidade não pode ser comprada com esses sonhos de consumo. E mais: o alvo que pode estragar tudo está ao lado. Trata-se de um intruso, um hóspede que chega sem ser convidado, amigo dos filhos do casal, mas um peso morto para Maria Clara e o marido.
.............Com relação à casa, há a areia que silenciosamente ameaça a estragar a construção. É como uma espécie de presságio, determinando que essa aparente felicidade encontra-se por um fio. Num determinado trecho do livro, se lê: “É imbatível até o próximo vento minar as estruturas mais sólidas”. É como se, minando as estruturas da casa, minasse também as do casamento.
.............Depois, nada mais tornará a vida a ser como antes. Uma vida, enfim, onde não há soluções simples. Essa parece ser a lógica inexorável: mesmo nos relacionamentos mais estáveis e duradouros, tudo poderá acabar pelo acaso.
.............Esse romance, como toda a obra de Cony, constitui um interessante universo a ser descoberto, não apenas quanto à imaginação literária, mas também no que concerne às questões de versatilidade de seus personagens, ora atormentados, ora perplexos, com um sentimento de impotência ante o caos com que se deparam no cotidiano.
Ao ler Cony, sinto um imenso prazer. As situações por ele criadas, os acasos surgidos a cada capítulo, as descrições perfeitas das coisas, os lances psicológicos dos personagens, tudo é primoroso. São relatos de amor e de perda, perfeitas combinações entre ficção e realidade. Enfim, um deleite para nosso espírito.