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ANKITO, ALEGRIA DE MINHA
INFÂNCIA
Ao
anunciar a morte de Ankito, ocorrida no dia 30 de março último,
a televisão mostrou várias fotos do comediante, algumas
antigas, outras atuais. As antigas, eu já conhecia: eram cenas
dos inúmeros filmes nos quais o impagável cômico trabalhou
nas décadas de cinqüenta e sessenta, divertidíssimos,
em que fazia dupla com Grande Otelo, outro monstro sagrado da comédia
brasileira. As novas, porém, me surpreenderam e entristeceram.
Nelas, vi um Ankito velho, desfigurado, olhar sem brilho, talvez já
no processo do câncer que o consumia, porém teimando em perpetuar
as cenas engraçadas que já não conseguia fazer. A
telinha mostrava um velho muito diferente do jovem ator que ele fora.
E isso me entristeceu deveras. Sobretudo, por recordar as tardes em que,
sentados nas desconfortáveis cadeiras do Cine Plaza, nós,
minha irmã Goia, meus irmãos e toda a gurizada do bairro
do Poço, assistíamos às chanchadas da Atlântida,
as quais se tornaram uma das maiores alegrias de nossa infância,
principalmente aquelas em que Ankito contracenava com Renata Fronzi e
outras estrelas do cinema nacional da época: “O feijão
é nosso”, “É do chuá”, “Metido
a bacana”. Esses filmes levavam a garotada ao delírio naquele
espaço que, para nós, era um verdadeiro reduto de sonhos.
Eu, particularmente, juntamente com meus irmãos, era espectadora
assídua das exibições daquelas “fitas”
super engraçadas. Ah, como me recordo!
..................Além do cinema,
Ankito trabalhou também na TV Tupi, TV-Educativa, Rede-Record,
TV-Bandeirantes e Rede-Globo. Nessa última, fez parte do elenco
do programa humorístico “Zorra total”, no papel de
Usinhor. E participou também das novelas “A Sucessora”
e “Alma gêmea”, ambas da Globo.
.................Muitas vezes comparado com
Oscarito, o gênio das chanchadas, essas comparações
chegavam a colocá-lo em patamar inferior ao do grande cômico.
Eu, porém, sempre o considerei em pé de igualdade com o,
então, rei absoluto da Atlântida.
.................Ankito, que na verdade se
chamava Anchizes Pinto, foi uma estrela de primeira grandeza das chanchadas
nacionais, responsável por muitas alegrias.
.................Nascido em São Paulo,
em 1924, filho de família circense (o pai foi o palhaço
“Faísca” e o tio, o famoso palhaço “Piolim”),
o cômico, já aos sete anos, estreou no picadeiro, fazendo
acrobacias e, mais tarde, rodopiando no “globo da morte”,
montado numa bicicleta. Seu primeiro trabalho no cinema foi o filme “É
fogo na roupa”, de 1952. O filme fez tanto sucesso que o povo passou
a adotar o dito popular “é fogo na roupa” para definir
algo complicado ou fora do normal.
.................Em
fevereiro deste ano, sua mulher, a atriz Denise Casaes (com quem estava
casado há 25 anos – a serem comemorados no próximo
dia 9 deste mês –, lançou sua biografia, intitulada
“Minha Vida, Meus Humores”, um delicioso livro, de confecção
primorosa, no qual é mostrada toda a trajetória do grande
cômico, no cinema e na televisão, com lances interessantíssimos
de sua vida, ilustrados por inúmeras fotos.
.................Com a morte de Ankito, cujo
humor e alegria um câncer no pulmão apagou, o país
perde um dos grandes mestres da arte de fazer rir, o grande palhaço,
o encanto da gurizada que superlotava as salas de projeções
das casas de exibição brasileiras, com interpretações
ingênuas e escrachadas, mas que calavam fundo a alma popular.

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