CRÔNICAS
2009
2010
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ANKITO, ALEGRIA DE MINHA INFÂNCIA

Ao anunciar a morte de Ankito, ocorrida no dia 30 de março último, a televisão mostrou várias fotos do comediante, algumas antigas, outras atuais. As antigas, eu já conhecia: eram cenas dos inúmeros filmes nos quais o impagável cômico trabalhou nas décadas de cinqüenta e sessenta, divertidíssimos, em que fazia dupla com Grande Otelo, outro monstro sagrado da comédia brasileira. As novas, porém, me surpreenderam e entristeceram. Nelas, vi um Ankito velho, desfigurado, olhar sem brilho, talvez já no processo do câncer que o consumia, porém teimando em perpetuar as cenas engraçadas que já não conseguia fazer. A telinha mostrava um velho muito diferente do jovem ator que ele fora. E isso me entristeceu deveras. Sobretudo, por recordar as tardes em que, sentados nas desconfortáveis cadeiras do Cine Plaza, nós, minha irmã Goia, meus irmãos e toda a gurizada do bairro do Poço, assistíamos às chanchadas da Atlântida, as quais se tornaram uma das maiores alegrias de nossa infância, principalmente aquelas em que Ankito contracenava com Renata Fronzi e outras estrelas do cinema nacional da época: “O feijão é nosso”, “É do chuá”, “Metido a bacana”. Esses filmes levavam a garotada ao delírio naquele espaço que, para nós, era um verdadeiro reduto de sonhos. Eu, particularmente, juntamente com meus irmãos, era espectadora assídua das exibições daquelas “fitas” super engraçadas. Ah, como me recordo!
..................Além do cinema, Ankito trabalhou também na TV Tupi, TV-Educativa, Rede-Record, TV-Bandeirantes e Rede-Globo. Nessa última, fez parte do elenco do programa humorístico “Zorra total”, no papel de Usinhor. E participou também das novelas “A Sucessora” e “Alma gêmea”, ambas da Globo.
.................Muitas vezes comparado com Oscarito, o gênio das chanchadas, essas comparações chegavam a colocá-lo em patamar inferior ao do grande cômico. Eu, porém, sempre o considerei em pé de igualdade com o, então, rei absoluto da Atlântida.
.................Ankito, que na verdade se chamava Anchizes Pinto, foi uma estrela de primeira grandeza das chanchadas nacionais, responsável por muitas alegrias.
.................Nascido em São Paulo, em 1924, filho de família circense (o pai foi o palhaço “Faísca” e o tio, o famoso palhaço “Piolim”), o cômico, já aos sete anos, estreou no picadeiro, fazendo acrobacias e, mais tarde, rodopiando no “globo da morte”, montado numa bicicleta. Seu primeiro trabalho no cinema foi o filme “É fogo na roupa”, de 1952. O filme fez tanto sucesso que o povo passou a adotar o dito popular “é fogo na roupa” para definir algo complicado ou fora do normal.

.................Em fevereiro deste ano, sua mulher, a atriz Denise Casaes (com quem estava casado há 25 anos – a serem comemorados no próximo dia 9 deste mês –, lançou sua biografia, intitulada “Minha Vida, Meus Humores”, um delicioso livro, de confecção primorosa, no qual é mostrada toda a trajetória do grande cômico, no cinema e na televisão, com lances interessantíssimos de sua vida, ilustrados por inúmeras fotos.
.................Com a morte de Ankito, cujo humor e alegria um câncer no pulmão apagou, o país perde um dos grandes mestres da arte de fazer rir, o grande palhaço, o encanto da gurizada que superlotava as salas de projeções das casas de exibição brasileiras, com interpretações ingênuas e escrachadas, mas que calavam fundo a alma popular.